domingo, agosto 20, 2017

Jerry Lewis (1926 - 2017)

Actor, realizador, homem de televisão, filantropo, é um dos nomes centrais na história do moderno cinema americano e da cultura popular ao longo da segunda metade do século XX: Jerry Lewis faleceu de causas naturais, hoje, dia 20 de Agosto de 2017, na sua casa de Las Vegas — contava 91 anos.
Para muitos espectadores americanos, será "apenas" o homem que, com uma energia contagiante, organizou e apresentou ao longo de 46 anos (até 2014) uma maratona televisiva destinada a angariar fundos para ajudar as crianças que sofrem de distrofia muscular. Para quase todos os frequentadores de salas de cinema na Europa, sobretudo os mais jovens, não passará de uma referência distante, mais ou menos anedótica, sem espessura artística.
De facto, há muito que Jerry Lewis, desiludido com a evolução industrial e comercial de Hollywood ao longo da década de 70, se sentia como um outsider. E com razões para isso: deixou de encontrar condições para a produção regular dos seus filmes e, em boa verdade, quase ninguém o convidava, a não ser para papéis mais ou menos decorativos em que apenas se lhe pedia que interpretasse a sua própria imagem de marca. A grande excepção foi O Rei da Comédia (1982), de Martin Scorsese, um retrato implacável da degradação televisiva do conceito de entertainment em que contracenava com Robert De Niro.
O período de maior glória — e de trabalho continuado — de Jerry envolve, grosso modo, os dezassete filmes em que formou uma célebre dupla com Dean Martin, entre 1949 e 1956 (Pintores e Raparigas, de 1955, dirigido pelo seu mestre Frank Tashlin, poderá servir de símbolo modelar), e as suas realizações ao longo da década de 60, começando com Jerry no Grande Hotel (1960), continuando com títulos admiráveis como O Homem das Mulheres (1961), As Noites Loucas do Dr. Jerryll (1963), Jerry 8 3/4 (1964), Jerry e os Seis Tios (1965) ou Uma Poltrona para Três (1966), desembocando, já em 1970, em Onde Fica a Guerra?, genial variação burlesca sobre a Segunda Guerra Mundial e os valores militaristas. Em qualquer caso, registe-se que, ainda que com interrupções, The Jerry Lewis Show se manteve no pequeno ecrã entre 1963 e 1984.
A sua herança é das mais visceralmente ligadas à grande tradição burlesca, envolvendo Charlie Chaplin, Buster Keaton e o nem sempre muito lembrado Stan Laurel. Ao mesmo tempo, através de um sistema de mise en scène capaz de transfigurar os elementos cenográficos em base de novas e ousadas experimentações dos vectores espaço-temporais, Jerry surgiu na linha de frente das muitas convulsões conceptuais e narrativas que, durante os anos 60, abalaram o cinema da Europa e dos EUA. Em Outubro de 1967, numa entrevista aos Cahiers du Cinéma, a propósito do seu filme La Chinoise, Jean-Luc Godard considerava mesmo que, naquele momento, Jerry Lewis era o "mais corajoso" cineasta de Hollywood.
Da herança de Jerry fazem parte dois livros fundamentais: The Total Film-Maker (1971), sobre os seus métodos e técnicas de realização, e Dean & Me (A Love Story) (2005), evocação do período da sua carreira na companhia de Dean Martin, escrito com a colaboração de James Kaplan. Um dos seus derradeiros aparecimentos públicos foi em Cannes, no ano de 2013, quando o festival o homenageou, apresentado Max Rose, de Daniel Noah, o último filme em que assumiu uma personagem central (um pianista de jazz confrontado com memórias perturbantes, desencadeadas pela morte da mulher).
Com o desaparecimento de Jerry Lewis, fica por resolver o caso do seu filme The Day the Clown Cried (1972). Rodado na Suécia, nele interpreta a personagem de um palhaço, profissional do circo, que é preso pelos nazis e compelido, num campo de concentração, a acompanhar as crianças que vão ser mortas — rodeado de muitas polémicas, minado por diversos problemas de produção, o filme é conhecido através de algumas pouquíssimas imagens mas, quase meio século depois da rodagem, permanece inédito.

>>> Trailer de Pintores e Raparigas (1955), de Frank Tashlin, talvez o melhor filme da dupla Dean Martin/Jerry Lewis.


>>> Trailer de Jerry no Grande Hotel (1960), primeira realização de Jerry Lewis, uma paródia ao próprio sistema clássico de produção.


>>> Trailer de O Homem das Mulheres (1961), sublinhando as características monumentais do próprio cenário.


>>> Jerry Lewis recorda experiência de colaboração com Martin Scorsese e Robert De Niro em O Rei da Comédia (1982).


>>> Trailer de Max Rose (2013), de Daniel Noah, "filme-testamento".


>>> Obituário: New York Times + Vanity Fair + BBC.

Um "blockbuster" de rotina

Infelizmente, a continuada fabricação de "blockbusters" transformou-se, em muitos casos, na arte de destruir histórias com potencial — este texto foi publicado no Diário de Notícias (17 Agosto), com o título 'Stephen King em "blockbuster" de rotina'.

Qual o mais inquietante fantasma de produção que tem marcado o mundo dos “blockbusters” mais ou menos fantásticos e fantasistas? Convenhamos que não será a limitação de recursos técnicos. Aliás, com resultados “bons” ou “maus”, os estúdios americanos continuam apostados em gastar rios de dinheiro neste tipo de produções, por vezes com patéticos resultados de bilheteira... Em qualquer caso, o maior fantasma é o dos constantes adiamentos — há histórias que vão sendo adaptadas, revistas e corrigidas ao longo de muitos anos, de tal modo que um projecto tematicamente interessante se vai transformando num imenso pesadelo de produção.
Assim foi A Torre Negra, adaptação da série homónima do escritor Stephen King cuja produção se arrastou desde 2007, envolvendo vários estúdios (começou com a Universal, surgindo, finalmente, com chancela da Columbia Pictures) e cineastas (J. J. Abrams e Ron Howard foram hipóteses). Claro que uma década de atribulações não “explica” as virtudes ou limitações de um filme. O certo é que, neste caso, a banalidade dos resultados mostra que, ao longo de todo este tempo, ninguém soube muito bem o que fazer com a saga do jovem Jake Chambers (Tom Taylor) e a sua capacidade de, através de sonhos e desenhos, vislumbrar as convulsões de um mundo alternativo em que se trava uma batalha decisiva entre o Bem e o Mal.
Idris Elba e Matthew McConaughey, respectivamente o último dos Pistoleiros e o inquietante “Homem de Negro”, bem se esforçam por dar consistência a personagens que, em boa verdade, não passam de esboços anedóticos. Depois, cumpre-se a regra tristemente dominante neste tipo de objectos: as muitas linhas de força da intriga são menosprezadas (ou não foram minimamente trabalhadas pelos quatro responsáveis pelo argumento...), surgindo os ultra-convencionais efeitos especiais como tentativa de “compensação” — quantas vezes já vimos uma porta com uma luz a brilhar a dar passagem para... o outro mundo?
Tendo em conta as competências envolvidas, é pena que tudo isto aconteça. O mais penalizado será o próprio realizador, o dinamarquês Nikolaj Arcel. Conhecíamo-lo através de Um Caso Real, curioso drama histórico com Alicia Vikander e Mads Mikkelsen, que obteve uma nomeação para o Óscar de melhor filme estrangeiro de 2013. Fica por explicar porque é que alguém deduziu que a experiência de Arcel com as nuances históricas do século XVIII da Dinamarca o definia como uma boa escolha para tratar o mundo assombrado de Stephen King...

sábado, agosto 19, 2017

"Embraceable You" [canções]

Sarah Vaughan
Embraceable You
Sarah Vaughan with Clifford Brown (1954)


O cão de Todd Solondz

de Todd Solondz
[DN, 10-08-2017]

Símbolo veterano de um certo cinema independente americano (recorde-se o interessante Wellcome to the Dollhouse, de 1995), Todd Solondz tem evoluído através do reforço das componentes mais maniqueístas do seu universo: primeiro, um formalismo visual cada vez mais postiço e redundante; depois, a redução do seu cepticismo social a um banal menosprezo por todas as suas personagens.
Neste caso, a colagem de episódios ligados pela presença de um mesmo cão (Wiener-Dog é o título original) vai oscilando da caricatura do quotidiano até uma bizarra dimensão sobrenatural. Apesar de tudo, são os actores que sustentam os melhores momentos, em particular Danny DeVito, compondo um argumentista frustrado pela indiferença de Hollywood (acto falhado?...), e ainda, na história final, Ellen Burstyn e Zosia Mamet.

sexta-feira, agosto 18, 2017

A IMAGEM: Adam Zyglis, 2017

ADAM ZYGLIS
Steve Bannon
The Buffalo News, 06-02-2017

Racistas [citação]

Matthieu Bourel [ilustração NYT]
>>> Desde o começo da sua corrida presidencial, uma das mais sérias acusações contra o Sr. Trump foi a de que ele tolera os racistas. Muitos dos seus apoiantes, eu incluído, conseguimos convencer-nos que alguns dos seus comentários mais chocantes — como na controvérsia em torno do juiz Gonzalo Curiel [nomeado por Barack Obama] ou na sua hesitação inicial em repudiar o apoio de David Duke [negacionista do Holocausto, ex-líder do Ku Klux Klan] — não passavam de gaffes, à maneira de Biden, cometidas no calor da campanha.
Tornou-se agora claro que estávamos a iludir-nos. Ou o Sr. Trump sente uma genuína simpatia por pessoas como David Duke, ou é de tal maneira obtuso que se revela radicalmente incapaz de aprender com os seus próprios erros. De uma maneira ou de outra, continua a dar razão aos seus críticos mais severos.

The New York Times, 17-08-2017

Chet Baker — jazz & cinema

Ethan Hawke
Há quase um ano e meio, assinalava-se aqui a trajectória de um filme que suscitava muita curiosidade e expectativa: Born to Be Blue tinha Ethan Hawke a interpretar Chet Baker! Infelizmente, confirmaram-se as mais cépticas previsões. Ou seja: o filme nunca chegou às salas portuguesas. Agora, anda discretamente a circular pela televisão por cabo, para mais identificado por um título português, no mínimo, equívoco: O Homem dos Blues. Fica o essencial: importa descobrir tão frágil diamante — este texto foi publicado no Diário de Notícias (13 Agosto), com o título 'Chet Baker contra Chet Baker'.

A canção Born to Be Blue, composta em 1946 pela dupla Mel Tormé/Robert Wells é um lendário standard do jazz, conhecido através de versões de Dexter Gordon, Ella Fitzgerald, Helen Merrill, Ray Charles ou Chet Baker. Born to Be Blue é também o título de um belo filme canadiano de 2015, sobre o trompetista Chet Baker, precisamente, agora disponível na televisão por cabo (TVCine).
Como qualquer outro filme, também este vale por si, independentemente das condições (ou, como agora se diz, das plataformas) da sua divulgação. Ainda assim, como não lamentar que tão delicado objecto de cinema surja no pequeno ecrã sem ter passado pelas salas escuras? A sua odisseia comercial surge também assombrada pelo infeliz título português, O Homem dos Blues. Mesmo tendo em conta as muitas contaminações entre jazz e blues (recorde-se o valor pedagógico da série televisiva The Blues, produzida por Martin Scorsese em 2003), a definição de Chet Baker como “homem de blues” carece de pertinência histórica e estética.
Será preciso acrescentar que o “blue” de Born to Be Blue não é uma classificação musical, antes remete para um misto de desencanto e melancolia? De facto, a existência de Chet Baker (1929-1988) foi uma tragédia suspensa entre o confronto com os grandes intérpretes negros do seu tempo (a começar por Miles Davis) e uma violenta dependência da heroína. Robert Budreau, argumentista e realizador de Born to Be Blue, encena-o nesse ziguezague entre uma cruel pulsão auto-destrutiva e a nunca vencida utopia da música.
Como intérprete de Chet Baker, Ethan Hawke encontra, aqui, um dos maiores desafios da sua carreira. Desde logo, pela aposta em “reproduzir” o olhar triste, a fragilidade da voz e a pose cansada da personagem. Mas sobretudo porque seria demasiado fácil apresentar Chet Baker através de algumas explicações “psicológicas” mais ou menos redentoras.
Daí o jogo de espelhos que Budreau propõe, arriscando para além das obrigações “factuais” de uma biografia. Born to Be Blue oscila entre a vida vivida e a vida imaginada (o filme dentro do filme em que Chet Baker teria interpretado o seu próprio papel), numa ambivalência em que a personagem se define contra a sua própria identidade. Nesse sentido, este é um filme eminentemente jazzístico, não pelos factos narrados, mas pela sua própria construção: trata-se de saber que variações dramáticas são possíveis a partir do tema “Chet Baker” — mesmo quando a melodia inicial parece perder-se pelo caminho, há uma emoção que persiste.

quinta-feira, agosto 17, 2017

Jacques Demy, aqui e agora (2/2)

A reposição de dois filmes de Jacques Demy é o grande evento cinéfilo deste Verão do nosso descontentamento — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Agosto), com o título 'Quando a música é uma forma de erotismo'.

[ 1 ]

Em boa verdade, já havia música em Lola, incluindo a célebre canção-tema interpretada por Anouk Aimée. O seu compositor, Michel Legrand, acabaria por ser uma personalidade decisiva na consolidação do cinema de Demy, compondo, justamente, as bandas sonoras de Os Chapéus de Chuva de Cherburgo e As Donzelas de Rochefort.
O que distingue o primeiro filme das matrizes tradicionais do musical é a sua estrutura recitativa. Não encontramos as habituais “interrupções” da acção para que, através do canto, eventualmente da dança, os actores interpretem um “número” autónomo. Um pouco à maneira da ópera, todos os diálogos são cantados, transformando a acção num fascinante “coral” que está longe de ser historicamente abstracto: o romance do par central, interpretado por Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo, está mesmo dramaticamente marcado pelo facto de ele ser mobilizado para combater na guerra da Argélia.
MICHEL LEGRAND
No Festival de Cannes de 1964, Os Chapéus de Chuva de Cherburgo arrebatou a Palma de Ouro (com o alemão Fritz Lang a presidir ao júri) e, de um momento para o outro, deu a Catherine Deneuve o estatuto de estrela. Demy voltou a convidá-la para o filme seguinte, precisamente As Donzelas de Rochefort, alargando o convite a sua irmã, Françoise Dorléac. Com apenas um ano e meio de diferença de idade (Françoise nasceu em 1942, Catherine em 1943), Demy sugeriu-lhes que representassem um par de gémeas, o que, aliás, se reflectiria numa das mais célebres canções (“Nous sommes deux soeurs jumelles...”) compostas por Legrand.
Os amores e desamores das personagens centrais são de novo encenados através de uma narrativa exuberante em que a música (incluindo a dança) desempenha um papel nuclear. Explicitando as suas raízes criativas, Demy convidou dois americanos a integrar o elenco: o mestre Gene Kelly e George Chakiris (que, em 1961, contracenara com Natalie Wood em West Side Story). Com grande parte das sequências rodadas nas ruas e praças da cidade de Rochefort, o filme persiste como um dos mais perfeitos objectos de toda a história do musical. A sua contagiante felicidade teria como contraponto um acontecimento trágico: no Verão de 1967, cerca de três meses depois da estreia, Françoise Dorléac faleceu num acidente de automóvel.

LCD Soundsystem, tonite

A pose mais ou menos retro (microfone incluído) fica bem a James Murphy. É assim que ele aparece no teledisco de tonite (nem a minúscula nem a grafia são erros), com direcção de Joel Kefali — é mais um aperitivo para o novo álbum dos LCD Soundsystem, American Dream, agendado para 1 de Setembro.

quarta-feira, agosto 16, 2017

A IMAGEM: Murray Close, 1992

MURRAY CLOSE
Madonna
[rodagem do teledisco de This Is Used to Be My Playground]
1992

As agências de comunicação
que tratam os jornalistas por "tu"

PIERRE BONNARD
Auto-retrato
1889
1. Deixou de ser um acidente. Passou a ser um comportamento normalizado. Mais do que isso: ilustra uma forma de cultura que, como todas as formas de cultura, envolve uma percepção específica da identidade do outro.

2. Que acontece, então? Proliferam os emails provenientes de entidades — ditas agências de comunicação — que promovem determinados produtos, na área do audiovisual em particular, tratando-me por "tu" (sem esquecer que eu sou apenas um dos destinatários do colectivo de endereços que gerem). Umas vezes são assinados por homens, outras por mulheres; em qualquer caso, são pessoas que, pura e simplesmente, não conheço — convém, aliás, começar por lembrar que, na era das "amizades" virtuais, ter acesso ao endereço de email de alguém ainda não é uma forma de conhecimento, nem sequer banalmente social, dessa pessoa.

3. Que está a acontecer, realmente? Porque é tais pessoas consideram que podem, ou devem, tratar-me por "tu"?

4. Bem sei que a minha interrogação será lida na maioria dos casos como banal afirmação de autoridade etária ("olha ele ofendido..."). E, humildemente reconheço, não será fácil superar o maniqueísmo de tal visão.

5. Arrisco, de qualquer modo. É verdade que, apesar do meu interesse, estudo e máximo respeito pela cultura anglo-saxónica, ainda não me sinto obrigado a transpor para o português a gramática da língua inglesa. Dito de outro modo: a globalização do "you" não me leva a sentir-me obrigado a lidar com o meu semelhante através de um compulsivo "tu".

6. Em todo o caso, não vejo este infantilismo obrigatório do "tu" como uma banal falta de respeito. Em boa verdade, é muito pior do que isso: esse "tu" triunfante transporta uma brutal indiferença pelo outro.

7. Porquê indiferença? Porque a ilusória proximidade do "tu" pressupõe — ou quer impor — a ideia de que falamos a mesma linguagem.

8. Ora, seria importante que os homens e as mulheres que trabalham nas ditas tarefas de comunicação começassem por perceber uma lei básica da própria comunicação. A saber: podemos utilizar a mesma língua, mas isso não quer dizer que nos reconheçamos nas mesmas linguagens.

9. Ou ainda: não é porque decidem tratar-me por "tu" que eu passo a aplicar (muito menos sou obrigado a aplicar) as mesmas linguagens para falar, escrever ou pensar sobre os produtos que querem promover.

10. Pela evolução dos costumes — entenda-se: das linguagens —, sou mesmo levado a deduzir que os homens e as mulheres que nos tratam por "tu" consideram que os outros, a começar pelos jornalistas, só podem encarar os filmes ou as séries de televisão que promovem como produtos definidos a partir das regras que eles aplicam. Como chegaram a tão simplista visão? Valeria a pena trabalharem um pouco para compreender o mundo plural das linguagens e respectivas especificidades, nomeadamente as singularidades dessa velha arte de comunicação que se chama jornalismo — encore un effort...

terça-feira, agosto 15, 2017

Aaron Sorkin + Jessica Chastain

Aaron Sorkin, argumentista das séries Os Homens do Presidente (1999-2006) e The Newsroom (2012-2014), e de filmes como A Rede Social (David Fincher, 2010) e Steve Jobs (Danny Boyle, 2015), estreia-se na realização com Molly's Game — trata-se da adaptação do livro homónimo de Molly Bloom que, durante alguns anos, dirigiu um clube privado de poker frequentado por algumas das figuras mais poderosas de Hollywood.
Para além da expectativa suscitada pelo novo trabalho daquele que é um dos mais notáveis argumentistas da actualidade, não será arriscado supor que, no papel de Molly, Jessica Chastain surgirá, no mínimo, na linha da frente para uma nova nomeação para o Oscar. Seja como for, registe-se que Molly's Game será revelado em Setembro no Festival de Toronto, chegando aos ecrãs dos EUA no dia 22 de Novembro. 

>>> Trailer de Molly's Game + extracto de uma conversa com Aaron Sorkin na Loyola Marymount University, em 2016 + entrevista de CinemaBlend com Aaron Sorkin e Jessica Chastain, no ComicCon 2017.





Chelsea Wolfe em teledisco

Já sabíamos que Chelsea Wolfe vai lançar um novo álbum em Setembro. Começámos a conhecê-lo através do tema 16 Psyche que, agora, tem direito a tratamento em teledisco. Fiel ao seu intimismo surreal, a cantora californiana parece querer assumir as influências sonoras e figurativas de Marilyn Manson — et pour cause...

segunda-feira, agosto 14, 2017

Jacques Demy, aqui e agora (1/2)

A reposição de dois filmes de Jacques Demy é o grande evento cinéfilo deste Verão do nosso descontentamento — este texto foi publicado no Diário de Notícias (12 Agosto), com o título 'Quando a música é uma forma de erotismo'.

Vivemos um tempo de muitos delírios musicais, com streaming para todos os gostos, nostalgia do vinyl, concertos e mais concertos — sabemos mesmo que, por mais remota que seja a canção que queremos ouvir, o mundo virtual vai ajudar-nos a encontrá-la. Mas será que tudo isso constitui uma verdadeira memória? Podemos, agora, relançar a pergunta de modo insólito. Ou seja: quem se lembra do francês Jacques Demy?
Pois bem, naquele que é o mais belo acontecimento do nosso Verão cinematográfico, a distribuidora Midas Filmes repõe, em cópias digitais restauradas (a partir do dia 17, no cinema Ideal), duas obras-primas do cinema musical com assinatura de Demy: Os Chapéus de Chuva de Cherburgo (1964) e As Donzelas de Rochefort (1967).
JACQUES DEMY
(1931-1990)
Há qualquer coisa de “ovni” neste nome, até porque quando falamos de filmes musicais não nos lembramos do cinema francês, mas sim da idade de ouro de Hollywood — e convenhamos que Fred Astaire, Judy Garland ou Gene Kelly nos dão boas razões para celebrar tão glorioso período. Apesar de se ter revelado nos tempos heróicos da Nova Vaga francesa, Demy raras vezes surge citado ao lado de Jean-Luc Godard, François Truffaut ou Eric Rohmer.
Curiosamente, era o próprio que gostava de definir a sua primeira longa-metragem, Lola (1960), com Anouk Aimée, como um “musical sem música”, no sentido em que a sua exploração das convulsões do melodrama tinha qualquer coisa de musical. Demy via as relações humanas — e, em particular, as trocas amorosas — como um labirinto de temas e variações. Como se cada um de nós seguisse uma pauta de sentimentos e emoções que o parceiro do lado nem sempre reconhece. Daí as perturbantes dissonâncias. Daí também, em efémeros momentos de felicidade, as espectaculares harmonias — no cinema de Demy, a harmonia (musical ou afectiva) é uma forma de erotismo.