sábado, fevereiro 17, 2018

Moda em castanho e vermelho

Excelente porfolio protagonizado por Ina Maribo com assinatura de Jens Ingvarsson: testemunhos de uma solidão ruiva e acastanhada, com rimas de vermelho — a ver em The Fashionography.

Nas margens do Disney World

* THE FLORIDA PROJECT, de Sean Baker
[ DN, 15-02-2018 ]

Nomeado para o Oscar de melhor actor secundário, Willem Dafoe surge a interpretar o gerente de um motel na Florida, próximo do Disney World (o título The Florida Project retoma a designação do local durante o período da sua construção). Para além do tom auto-complacente de algumas cenas e da exploração de efeitos dramáticos algo simplistas, o mais interessante resulta do modo como vamos descobrindo aquele motel como uma espécie de cenário de sobrevivência, ora cómico, ora à beira da tragédia, habitado por “marginais” da vida social.
Particularmente importante é a presença das crianças, com destaque para a pequena e enérgica Brooklynn Prince, interpretando uma menina de 6 anos enredada na teia da sua mãe toxicodependente — aliás, no papel da mãe, Bria Vinaite é a grande revelação do filme.

Os clichés da Marvel

* BLACK PANTHER, de Ryan Coogler
[ DN, 15-02-2018 ]

Eis um filme que tem sido celebrado nos EUA como uma aventura de super-heróis “diferente”. Porquê? Porque no seu centro está uma figura de pele negra: o rei de Wakanda (país africano fictício), interpretado por Chadwick Boseman. É uma leitura contaminada por todo um contexto de afirmação da identidade afro-americana, cujo dramatismo tem sido agravado por posições, no mínimo, ambíguas do presidente Donald Trump.
Resta saber se a contínua repetição de clichés da produção dos estúdios Marvel pode, ou deve, ser encarada em função das características raciais dos seus protagonistas. É verdade que o filme tenta, pelo menos, alguma originalidade na concepção cenográfica de Wakanda, mas cedo se limita a prolongar os lugares-comuns de um estilo que se satisfaz com a cópia da agitação visual de um qualquer jogo de video.

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

De 2001 a 2018: notícias do futuro

Os ecrãs do futuro vão ser cada vez maiores. Aliás, esse futuro já é presente — este texto foi publicado no Diário de Notícias (11 Fevereiro), com o título 'Um mundo feito de ecrãs'.

Lembram-se de 2001: Odisseia no Espaço? Acredito que sim. O filme de Stanley Kubrick completa este ano meio século de existência, sendo um daqueles objectos há muito inscrito, não apenas na arqueologia cinéfila, mas também no imaginário colectivo — atrevo-me mesmo a supor que os leitores que nunca tiveram oportunidade de ver o filme sabem do que estamos a falar.
Há dias, lembrei-me desta imagem do astronauta Dave Bowman (Keir Dullea) no seu posto de comando, enfrentando os problemas trágicos, afinal muito humanos, colocados pelo hiper-inteligente computador que responde pelo nome Hal 9000... e não quero retirar o prazer da descoberta a quem não conhece o filme. Dir-se-ia que Bowman continua a ser uma personagem dos nossos dias, de tal modo está assombrado pelos muitos ecrãs que o rodeiam. Pode dizer-se, aliás, que a nave Discovery One, a caminho de Júpiter, existe como uma imensa galeria de ecrãs, aplicados desde a gestão técnica até à escolha das refeições.
A imagem surgiu por associação a notícias recentes, ligadas às novidades reveladas, em Janeiro, no Consumer Electronics Show, um misto de exposição e feira, em Las Vegas, dedicado aos objectos electrónicos do nosso dia a dia. Das suas novidades, parece poder extrair-se uma conclusão muito básica: os ecrãs caseiros de televisão, agora contaminados pelas funções tradicionais de um computador, vão ser cada vez maiores.
Surpresa? Nenhuma, como é óbvio — o aumento das medidas dos ecrãs há muito que faz parte da oferta regular do mercado. Seja como for, não deixa de ser interessante citar o estado dessa oferta. Por exemplo, os ecrãs com mais de 1,4 metros de diagonal passaram a constituir um terço das vendas da Samsung contra apenas 20% há um ano, enquanto a marca chinesa Hisense apresentou em Las Vegas um ecrã de 3,8 metros de diagonal (definido como um produto híbrido entre televisor e retroprojector).
Eis um curioso problema arquitectónico e, claro, financeiro: a concepção do espaço caseiro vai estar cada vez mais ligada aos ecrãs que lá queremos ou podemos colocar. Em todo o caso, a conjuntura leva-nos também a reconhecer que assim se vai agravar uma pergunta cândida que, há várias décadas, assombra a indústria cinematográfica: com a crescente sofisticação das condições privadas de acesso às imagens (e sons), como mobilizar os cidadãos para as salas de cinema? Em jogo está algo mais do que a evolução tecnológica — trata-se de saber se o cinema pode acabar como experiência colectiva e, nessa medida, social.

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

OSCARS, passado e presente
— SOUND + VISION Magazine, FNAC
[adiado para 10 de Março]

* Questões particulares de última hora impediram a realização desta sessão no dia 10 de Fevereiro, facto pelo qual apresentamos as nossas desculpas — o SOUND + VISION Magazine terá lugar a 10 de Março.

É altura de falarmos de Oscars. Mas não apenas da aritmética das nomeações e dos prémios. No próximo SOUND + VISION Magazine, na FNAC, propomos uma reflexão sobre as linhas de força dos prémios deste ano da Academia de Hollywood e também uma viagem a alguns momentos emblemáticos dos mais célebres prémios de cinema do mundo.

* FNAC: Chiado, 10 Março (18h30)

Mercedes... ou isto não é futebol!

Tendo arrebatado pela quarta vez consecutiva o título mundial de Fórmula 1, a Mercedes achou por bem comemorar o feito celebrando a excelência do seu principal adversário. A saber: a Ferrari. Ou com o diz o anúncio criado pela agência italiana Grupo Roncaglia, "o valor de uma vitória pode ser encontrado na grandeza do oponente" — eis uma boa lição pedagógica contra a gritaria do futebol.

Varda & JR

* OLHARES LUGARES, de Agnès Varda & JR
[ DN, 08-02-2018 ]

Eis uma aliança criativa tão insólita quanto feliz: Agnès Varda, nome emblemático da Nova Vaga francesa (autora de Duas Horas da Vida de uma Mulher, 1962), continua a mostrar-se disponível para um cinema documental carregado de afectos e nostalgia poética; o artista que assina com as iniciais JR é alguém que gosta de fotografar pessoas anónimas, produzindo retratos gigantescos que depois cola, literalmente, nas fachadas das respectivas casas. Olhares Lugares nasce da sua deambulação por uma França esquecida, de espírito rural, conservando valores e vivências bem diferentes dos padrões dos grandes centros urbanos. É também um sério candidato ao Oscar de melhor documentário, isto depois de a própria Varda, em Novembro de 2017, nos Governor Awards, já ter sido distinguida com um Oscar honorário.

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Nova canção de Ryan Adams

Nos mais diversos mercados, o Dia dos Namorados é pretexto para o lançamento e promoção de produtos que reduzem o consumo a uma monótona repetição de clichés. Assim não acontece com Ryan Adams que aproveitou a data para lançar uma nova canção, a primeira depois do álbum Prisoner (2017) — chama-se Baby I Love You (não o tema clássico de The Ronettes) e apresenta-se num belo teledisco assinado por Brook Linder.

Gloria Grahame por Annette Bening

[ DN, 08-02-2018 ]

Em tempo de sistemática banalização, para não dizer apagamento, das memórias cinéfilas, o nome da actriz americana Gloria Grahame (1923-1981) não será uma referência muito corrente... O filme de Paul McGuigan, sobre os tempos finais da actriz vividos em Liverpool (embora viesse a falecer em Nova Iorque) poderá ser também um objecto pedagógico. E tanto mais quanto nos revela a pessoa para além da imagem de marca da estrela.
Encontramos, assim, uma actriz enquistada na nostalgia da idade de ouro de Hollywood, no fundo consciente de que não é possível repetir as apoteoses do passado. Fundamental na subtileza emocional do filme é a notável composição de Annette Bening, sem esquecer a interpretação de Jamie Bell no papel de Peter Turner, o actor cujo livro de memórias serviu de base ao filme.
GLORIA GRAHAME
The Man Who Never Was / O Homem que Nunca Existiu (1956)
de Ronald Neame

terça-feira, fevereiro 13, 2018

"Live to Tell" — o nascimento de uma canção

Na arca de canções de Madonna, Live to Tell existe como uma das pérolas mais depuradas. Primeiro single do álbum True Blue (1986), a sua gestação é indissociável do filme At Close Range/À Queima-Roupa (1986), de James Foley, magnífico drama policial com Christopher Walken e Sean Penn (então casado com Madonna). Com música de Patrick Leonard e letra da própria Madonna, a canção teve uma gestação atribulada — foi inicialmente concebida para outro filme, tendo sido rejeitada; quando se colocou a hipótese de a integrar em At Close Range, Madonna não a queria cantar, considerando que o seu dramatismo seria um contraste excessivo em relação ao tom dominante do seu álbum anterior, Like a Virgin (1984). Curiosamente, para além da canção, Leonard viria a assinar a banda sonora de At Close Range.
A história era mais ou menos conhecida, mas agora podemos escutá-la contada pelo compositor, em frente ao piano, num depoimento para o programa televisivo holandês Top 2000 à Go-Go, começando por recordar a singeleza das notas de onde tudo partiu — eis a explicação de Leonard, o trailer original do filme e o teledisco da canção, assinado por Foley.





Beuys por Beuys

* BEUYS, de Andres Veiel
[ DN, 08-02-2018 ]

O mínimo que se pode dizer da arte do alemão Joseph Beuys (1921-1986) é que não pode ser reduzida a um conjunto de obras para expor em qualquer espaço tradicional... As suas esculturas ou instalações envolveram sempre modos muito particulares, poéticos e provocatórios, de ocupação dos lugares, fossem eles institucionais ou do espaço público. O documentário de Andres Veiel distingue-se, justamente, pela capacidade de nos conduzir no interior desse universo em que o gesto criativo se confunde com o discurso político, no limite, apostando em discutir as formas tradicionais de fazer política. A colecção de materiais de arquivo — incluindo algumas surpreendentes entrevistas televisivas — é tratada com especial cuidado, funcionando como um verdadeiro roteiro biográfico e, de alguma maneira, auto-biográfico.

A caminho dos OSCARS
— associação de argumentistas
distingue Jordan Peele e James Ivory

[Governor Awards]  [Gotham Awards]  [críticos de Nova Iorque]  [críticos de Los Angeles]
[American Film Institute]  [National Society of Film Critics]  [Globos de Ouro]
[National Board of Film Review]  [Critics' Choice Awards]  [NAAPC]  [associação de produtores] [associação de actores]  [N O M E A Ç Õ E S]  [associação de montadores]  [associação de cenógrafos]
[associação de realizadores]  [associação de animadores]  [USC]


A Writers Guild of America, associação que congrega argumentistas de cinema e televisão, atribuiu os seus prémios anuais, de alguma maneira confirmando o favoritismo de Jordan Peele para os Oscars. Foi ele o distinguido na categoria de argumento original, graças ao filme Foge (que também realizou); entre os argumentos adaptados, Chama-me pelo Teu Nome valeu mais um prémio a James Ivory — lista integral de vencedores no site da WGA.

* Argumento original — Jordan Peele, por FOGE [discurso de agradecimento]
* Argumento adaptado — James Ivory, por CHAMA-ME PELO TEU NOME
* Documentário — Brett Morgen, por JANE

Ezra Furman — uma saga queer

Atenção a Transangelic Exodus, de Ezra Furman, desde já candidato a figurar na lista dos grandes álbuns de 2018. Primeiro na formação Ezra Furman and the Harpoons, depois a solo, estamos perante um criador capaz de suscitar as mais diversas referências inspiradoras, sem que isso o transforme num nostálgico das citações — de acordo com uma declaração disponível no AllMusic, este quarto álbum em nome próprio (lembremos o anterior: Perpetual Motion People, lançado em 2015) é mesmo definido por estas palavras que convém conhecer para além das traduções abreviadas (incluindo a que dá o título a este texto): "a combination of fiction and half-true memoir... a paranoid road trip... a queer outlaw saga."
A sensibilidade queer envolve tanto as atribulações narrativas — esta é a história de um casal de amantes em fuga da polícia — como a procura de uma sensualidade formal que, com contagiante felicidade, trata a herança de Chuck Berry como coisa completamente actual, ao mesmo tempo que cultiva uma nostálgica crueza sonora que não é estranha a Bruce Springsteen (Iggy Pop é outras das obsessões artísticas de Furman).
Isto sem esquecer que há uma condição trans-angelical (o título não é um mero trocadilho) que se distingue pela capacidade de ter asas... Não é "ameaçador" para ninguém, garante Furman — e podemos acreditá-lo porque esse é o poder primordial da diferença poética.

Don’t tell my mom, don’t tell my dad
I’ve been driving down to L.A. with my baby
On the cliffs, he drives real fast
He may drive his car into the ocean, maybe

I don’t mind
I’ve got big dreams in my mind
I would give up my whole life for that feelin’
No, I don’t mind
If I lose my legs or die
I’ve built a home inside his eyes
And I ain’t leavin’

Don’t tell my mom, don’t tell my brother
I’ve been driving down the freeway with my master
There’s one law and I’ve known no other
It’s the law of love I’m bound to, drive me faster

I don’t mind
I’ll gladly pay that highway fine
This little heart is open wide and it’s getting wider
No, I don’t mind
If we cross the thin white lines
Over a cliff down to the ground
I am your rider

>>> Driving Down to L.A. em teledisco e ao vivo — direcção de Joseph Brett e Will Meyers, respectivamente; em baixo, entrevista ao New Musical Express.





segunda-feira, fevereiro 12, 2018

Kevin Spacey já não mora aqui (2/2)

Ridley Scott e Christopher Plummer
Todo o Dinheiro do Mundo tinha Kevin Spacey... passou a ter Christopher Plummer: uma história de usos e costumes do nosso tempo — este texto foi publicado no Diário de Notícias (7 Fevereiro), com o título 'Os puros e os impuros'.

[ 1 ]

Considero Ridley Scott um cineasta menor em cuja filmografia encontramos alguns trabalhos maiores, muito influentes na evolução de diversas temáticas e nas respectivas dinâmicas industriais. Entre tais trabalhos estão Alien – O Oitavo Passageiro (1979), Blade Runner (1982) e Thelma e Louise (1991). Agora, Todo o Dinheiro do Mundo parece-me uma das experiências mais desastrosas da sua carreira, reduzindo uma situação de profundo dramatismo a uma colecção de personagens caricaturais; veja-se o raptor interpretado por Romain Duris, perdido no estafado cliché do “mau com coração bom”...
Dito isto, importa pensar a substituição de Kevin Spacey por Christopher Plummer para além de qualquer “naturalidade”. Mesmo que o filme fosse uma imaculada obra-prima, isso não retiraria a Scott uma amarga responsabilidade: a de hipotecar a especificidade artística do seu trabalho (e de todos os que fizeram este filme) aos efeitos mediáticos da vaga de acusações de assédio sexual. Colocar tal questão não envolve nenhum branqueamento do comportamento de Spacey ou seja de quem for. O que importa pensar é se as nossas sociedades liberais, em nome de uma “pureza” que ninguém sabe definir, estão a esvaziar a noção fundadora do primado da lei, promovendo o espaço mediático a tribunal compulsivo e sem recurso.
Foi essa, aliás, a dúvida eminentemente construtiva lançada pelo muito comentado texto de uma centena de mulheres francesas (Le Monde, 9 Janeiro). Quando leio jornalistas de vários países a identificá-lo como o “documento Deneuve”, pergunto-me se se dão conta da sua cedência às formas de discriminação que dizem combater: Catherine Deneuve é uma estrela, sem dúvida, mas o seu estatuto não é uma boa razão para omitir o facto de estar acompanhada por 99 mulheres.

Jóhann Jóhannsson (1969 - 2018)

Foi duas vezes nomeado para o Oscar de melhor banda sonora: o compositor islandês Jóhann Jóhannsson foi encontrado morto no dia 9 de Fevereiro, no seu apartamento de Berlim, sem que se tenham esclarecido de imediato as causas da morte — contava 48 anos.
A sua sensibilidade musical enraizava-se numa imensa pluralidade, combinando um fôlego sinfónico clássico com experiências electrónicas e jazzísticas. O culto de tal pluralidade levou-o, em 1999, a participar na fundação de Kitchen Motors, colectivo apostado em abrir novos caminhos artísticos e de produção, da criação musical à organização de concertos. A sua obra pessoal reflecte essa dinâmica, desembocando no aclamado álbum Orphée (2016), com chancela da Deutsche Grammophon. Compôs as bandas sonoras de vários filmes de produção islandesa, vindo a projectar-se internacionalmente graças à música de Raptadas (2013), de Denis Villeneuve. A Teoria de Tudo (2014), de James Marsh, valeu-lhe uma primeira nomeação para os Oscars, proeza que repetiu com Sicario (2015), de novo de Villeneuve com quem, aliás, voltaria a colaborar em O Primeiro Encontro (2016). The Mercy, de James Marsh, e Mary Magdalene, de Garth Davis, foram os últimos títulos para os quais compôs música — estão ambos anunciados para 2018.

>>> Forces of Attraction, do filme A Teoria de Tudo + Flight from the City, do álbum Orphée.




>>> Obituário na Rolling Stone.
>>> Site oficial de Jóhann Jóhannsson.

John Gavin (1931 - 2018)

PSICO (1960)
Foi Sam Loomis, o namorado de Marion Crane (Janet Leigh) em Psico (1960), de Alfred Hitchcock: o actor americano John Gavin faleceu no dia 9 de Fevereiro, na sua casa de Beverly Hills, na sequência de complicações surgidas por causa de uma pneumonia — contava 86 anos.
Revelado em meados da década de 50 como "sucessor" de Rock Hudson, em boa verdade manteve-se sempre com o estatuto de secundário, sem aura de estrela. Nesse registo, foi um modelo de competência, sabendo adequar o seu estilo minimalista às mais diversas personagens, desde logo em dois admiráveis melodramas de Douglas Sirk: Tempo para Amar e Tempo para Morrer (1958) e Imitação da Vida (1959), o primeiro dos quais lhe valeu um Globo de Ouro de revelação. No mesmo ano de Psico, trabalhou sob a direcção de Stanley Kubrick em Spartacus, assumindo a personagem de Júlio César.
Como aconteceu com muitos outros actores ligados ainda aos modelos clássicos de Hollywood, a sua carreira foi-se orientando mais para a televisão, embora tenha tido ainda participações de alguma importância em Millie, Rapariga Moderna (1967), de George Roy Hill, e A Louca de Chaillot (1969), de Bryan Forbes. No princípio dos anos 70, a par de alguma actividade no teatro, chegou a ser considerado como uma séria hipótese para interpretar James Bond. Foi presidente do Screen Actors Guild (1971-73). No período 1981-86, já sem qualquer actividade em cinema ou televisão, desempenhou funções de embaixador dos EUA no México.

>>> Tralier de Spartacus.


>>> Obituário no New York Times.

"Caça às bruxas" [citação]

>>> [na sequência do movimento #MeToo] (...) qualquer agressão sexual e toda a violência — seja contra mulheres ou homens — devem ser condenadas e punidas. Mas a caça às bruxas devia ter acabado na Idade Média.

MICHAEL HANEKE
entrevista ao jornal austríaco Kurier

domingo, fevereiro 11, 2018

A caminho dos OSCARS
— "Chama-me pelo Teu Nome" recebe
prémio da Universidade da Califórnia

[Governor Awards]  [Gotham Awards]  [críticos de Nova Iorque]  [críticos de Los Angeles]
[American Film Institute]  [National Society of Film Critics]  [Globos de Ouro]
[National Board of Film Review]  [Critics' Choice Awards]  [NAAPC]  [associação de produtores] [associação de actores]  [N O M E A Ç Õ E S]  [associação de montadores]  [associação de cenógrafos]
[associação de realizadores]  [associação de animadores]


A University of Souther California atribuiu pela 30ª vez os seus prémios de argumento. São distinções para trabalhos de adaptação de obras literárias, com a particularidade de consagrarem os argumentistas e autores das obras adaptadas [USC]. James Ivory e André Aciman foram os vencedores, por Chama-me pelo Teu Nome [video: pequena entrevista com James Ivory antes da cerimónia]; em televisão, o prémio foi para Bruce Miller e Margaret Atwood (The Handmaid's Tale).

D. Manuel Clemente, o sexo e o não-sexo

I. Está instalada a agitação mediática em torno de um documento publicado por D. Manuel Clemente, intitulado 'Nota para a receção do capítulo VIII da exortação apostólica 'Amoris Laetitia''. Em boa verdade, assistindo à proliferação de textos que se têm insurgido contra aquilo que seria a interdição de relações sexuais aos casais católicos "recasados", fica-se com a sensação de que quase ninguém leu o texto em causa. Assistimos apenas a mais um fenómeno da miséria "social" em que vivemos: desde que seja possível criar alguma agitação em torno de uma frase solta ou uma palavra descontextualizada, segue-se uma avalanche de impropérios contra alguém (pessoa, grupo ou instituição) que se elege como alvo a abater.

II. Não estou especialmente empenhado em argumentar em torno do documento de D. Manuel Clemente — não me reconheço nele, é uma questão do meu foro pessoal, passo à frente.

III. Importa apenas referir que tal documento não é exactamente legislador, nascendo antes de uma postura que se quer de ampla abertura moral, obviamente formulada de acordo com os cânones católicos. Cito, por isso: o que D. Manuel Clemente faz é defender a ideia de "propor" aos referidos casais uma "vida em continência". Cito de novo: tal ideia decorre de uma outra, formulada pelo Papa Francisco na referida exortação apostólica, quando diz que "pode-se propor o compromisso em viver em continência", acrescentando que a "'Amoris laetitia' não ignora as dificuldades desta opção (...) e deixa aberta a possibilidade de aceder ao sacramento da Reconciliação, quando se falhe nesse propósito."

IV. Qual é a surpresa? De onde vem o choque? Na verdade, o que encontramos aqui é apenas — sublinho: apenas — um corolário de conceitos da Igreja Católica enraizados em muitos séculos de história, da sua história. Aliás, não deixa de ser interessante referir (e quase ninguém o fez) que, concorde-se ou não com o que diz D. Manuel Clemente e aquilo que o Papa Francisco escreveu, estas tomadas de posição reflectem algum empenho em lidar com a complexidade de um tempo, o nosso presente, em que muitos daqueles conceitos correm o risco de passar ao lado dessa complexidade.

V. Infelizmente, quase tudo aquilo com que temos sido bombardeados não reflecte qualquer disponibilidade para lidar com os preceitos de uma instituição profundamente enraizada na sociedade portuguesa e, em boa verdade, na educação de todos nós. Estamos apenas perante mais um evento do infantilismo hedonista que rege o comércio "social" das ideias e, sobretudo, da falta delas. Assim, ninguém reage à monstruosa acumulação de estupidez favorecida pela representação da sexualidade no Big Brother televisivo e seus derivados. Mas, para contentamento de quem teme as dificuldades inerentes ao acto de pensar, D. Manuel Clemente parece servir de bobo "social". Não precisamos de nos reconhecer na visão da sexualidade que ele enuncia; o certo é que há nessa visão, pelo menos, uma tentativa de pensar as relações humanas para além de qualquer maniqueísmo (sexo/não-sexo) que nos prive da nossa humanidade.